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fevereiro 27, 2010

memento mori i

o barulho da vizinha do lado, entretida nas limpezas da primavera, por muito urbano que fosse, parecia-lhe uma sinfonia afectuosa: sentia o cheiro a lavado dos lençóis a serem esticados em cima do colchão, e ouvia o raspar da vassoura no soalho de pinho desgastado, e conseguia mesmo vê-la, de mãos nas ancas gordinhas, satisfeita com o seu trabalho, sacudindo-se da sujidade que se lhe colara em duas horas de trabalho árduo, para depois soar aquele vozeirão na iminência do traquinas do filho lhe estragar o feito. as notas sucediam-se harmoniosamente.
ele sorriu para si próprio, sentindo-se muito quente e mole debaixo do cobertor com que se cobrira no sofá. tinha grandes expectativas para o dia que começara há pouco. um amigo seu da faculdade ia casar-se e incrivelmente recordava-se dele e sobretudo de uma maldita fotografia que o registara em trajes femininos vulgares. praticamente ausentes, os ditos. mal recebera o convite, começou a imaginar o cenário do casamento, a igreja, os jardins, que tipo de recepção fariam, seria buffet ou seriam servidos vários pratos, haveria pratos vegetarianos - se havia algo que o aborrecia terrivelmente era ir a algum lado e não encontrar uma refeição digna de um ser humano evoluído -, as sobremesas seriam demasiado açucaradas, haveria demasiada criançada a intrometer-se nas suas tentativas de sociabilização...
é que ele, jorge era o seu nome, vivia disso, do seu charme e da sua imaginação. certamente seria submetido às perguntas habituais: onde vive, "ah! mas que bairro agradável!", comentariam quando respondesse telheiras; onde e o que estudou, "que bom saber que há miúdos a ter um professor como você, que simpatia", e que paciência monumental teria de cultivar para aguentar uma tarde disto.
ergueu-se com pulo, bem-disposto, e atirando com os boxers para um canto, dirigiu-se para a casa-de-banho, assobiando ao som de tony carreira, artista predilecto da sua vizinha, que agora
estendia a roupa lavadinha na varanda, enquanto cantava a pleno pulmão. e se ela tinha talento!